Cabeceira assombrada: as melhores leituras de horror do primeiro semestre de 2019

07/07/2019 00h33

Cabeceira assombrada: as melhores leituras de horror do primeiro semestre de 2019.
Imagem: Pixabay)Coletâneas de contos de horror foram destaque no primeiro semestre de 2019.(Imagem:Pixabay))Coletâneas de contos de horror foram destaque no primeiro semestre de 2019.

Já se foram seis meses de 2019. Um semestre de muitas leituras, é verdade, embora não tantas quanto gostaríamos. Afinal, no caso da literatura, o ditado “vida breve, arte longa” é ainda mais verdadeiro do que em outras linguagens. Parece que a pilha na nossa cabeceira só aumenta.

Nestes momentos, listas costumam ajudar. E como nesta coluna lemos ficção de horror por paixão e ofício, resolvemos escolher as leituras mais marcantes desses primeiros seis meses. Ao final do texto, também recomendamos alguns lançamentos promissores nos próximos meses.

Antes, explicamos as escolhas: são livros que, na opinião do colunista, trazem alguma(s) singularidade(s). Textos que impressionam, seja pelas estratégias para causar o efeito do horror, seja pelas temáticas, seja pela construção retórica. Leituras que, séculos depois do surgimento da literatura gótica e de horror, ainda transmitem aquela maravilhosa sensação de que estamos diante de algo novo. Vamos às sugestões:

As Coisas que Perdemos no Fogo, de Mariana Enriquez
A coletânea de contos da escritora argentina está nocauteando leitores por onde passa. E não é por acaso, já que a força das histórias de Enríquez vem de várias fontes. A autora transita com muita habilidade entre os terrenos do familiar e do sobrenatural, em narrativas marcadas pela violência, pela miséria e pelo isolamento do mundo atual. Por esses motivos, Enríquez, hoje com 46 anos, é considerada uma expoente do chamado “horror urbano”.

A construção aparentemente simples dos textos favorece nosso envolvimento com o que é contado. E os golpes são desferidos na hora certa — às vezes seguidos, minando lentamente nosso juízo; às vezes únicos e demolidores. De um jeito ou de outro, contos como "A Casa de Adela", "Os Anos Tóxicos" e "O Quintal do Vizinho" levam-nos à lona, como bem ensinou o grande mestre — e conterrâneo de Enríquez — Julio Cortázar.

El Huésped y Otros Relatos Siniestros, de Amparo Dávila
Outra descoberta hispano-americana: Dávila é uma autora mexicana nascida em 1928 e ainda inédita no Brasil. Ela é conhecida pelos relatos curtos, mas intensamente fantásticos e macabros. Ilustrada pelo argentino Santiago Caruso, a coletânea El Huésped y Otros Relatos Siniestros oferece-nos um impressionante panorama desse trabalho.

O primeiro conto, "Alta Cocina", ilustra bem a estética da autora. Um(a) narrador(a) confessa seu tormento diante de banquetes preparados na casa de sua família. Mortifica-se com o sofrimento de criaturas que são preparadas e servidas ainda vivas, para deleite dos comensais.

O texto é curto, sóbrio e severo, e mais esconde do que revela. Ainda que o trabalho com o não dito seja um dos recursos mais utilizados por autores de horror, Amparo Dávila realiza-o com grande habilidade. Este e outros relatos, como "La Señorita Julia" e "El Huésped", convocam-nos habilmente a preencher as elipses da história com o que nossa mente tem de pior (ou de melhor, diriam alguns). E o resultado dificilmente se esquece.

Vejamos, agora, alguns lançamentos futuros que prometem dar o que falar (e aqui priorizamos obras que serão publicadas por meio de financiamento coletivo):

Mulheres vs. Monstros
Projeto independente organizado pela autora de thrillers paulista Cláudia Lemes. Trata-se de uma coletânea de contos que homenageará grandes mulheres da ficção — não só literária, mas cinematográfica, de seriados, e até mesmo do folclore e da mitologia. Escolhidos por Lemes, onze autoras e autores brasileiros elegeram um confronto "mulher X monstro" e criaram suas histórias a partir daí.

As narrativas do livro são inspiradas em Ellen Ripley e o Xenomorph de Alien; Laurie Strode e Michael Myers, de Halloween; Eleven e o Demogorgon, de Stranger Things; Nancy e Freddy Krueger, de A Hora do Pesadelo, e outras personagens célebres, como Barbarella, o Monstro da Lagoa Negra, Medusa, Atena, Vampirella, Eleonor Vance (de A Assombração na Casa da Colina, de Shirley Jackson), e até uma criatura do nosso folclore, o Arranca-Línguas. Além dos textos ficcionais, os autores também escreveram artigos em que justificam suas escolhas.

O projeto está com campanha aberta no Catarse e o lançamento está previsto para outubro.

O Enigma do Outro Mundo, de John W. Campbell
O filme de John Carpenter todo fã de horror conhece. O mesmo não acontece com o livro que o inspirou — até porque ele nunca foi editado no Brasil. Trata-se de Who Goes There, que também teve o título de Frozen Hell, do norte-americano John W. Campbell (1938).

O enredo literário, de traços lovecraftianos, é semelhante ao do filme: enquanto exploram o continente antártico, cientistas descobrem o corpo congelado de uma criatura alienígena de pele azul e três olhos vermelhos. Mas a coisa não estava realmente morta...

No exterior, Who goes there? fez tremendo sucesso; e a editora Diário Macabro pretende preencher essa lacuna nas estantes brasileiras. A publicação terá o mesmo nome do filme de Carpenter e ocorrerá por meio de financiamento coletivo, que começará a partir do dia 09 de julho no Catarse.

Varney, o Vampiro, de James Malcolm Rymer
Outra lacuna imperdoável nas nossas estantes. Considerado o maior exemplo do estilo sensacionalista e horripilante dos penny dreadfuls (folhetins de crime e horror vendidos a um centavo na Londres do século 19), Varney, o Vampiro adaptou o que havia de mais sinistro nas narrativas góticas para um público leitor de baixa renda, que buscava distração após jornadas de trabalho que chegavam a 16 horas diárias.

O resultado é uma história eletrizante, marcada pelos ataques noturnos do sanguessuga e pelas perseguições madrugada adentro. A saga do amaldiçoado Sir Francis Varney antecede em mais de cinco décadas o romance Drácula, de Bram Stoker, que se inspirou em muitas passagens da obra para compor a história de seu famoso conde. A publicação será da editora Sebo Clepsidra. E a campanha de financiamento coletivo está nos últimos dias.

*Oscar Nestarez é ficcionista de horror e mestre em literatura e crítica literária. Publicou Poe e Lovecraft: Um Ensaio Sobre o Medo na Literatura (2013, Livrus) e as antologias Sexorcista e Outros Relatos Insólitos (2014, Livrus) e Horror Adentro (2016, Kazuá).
Imagem: Pixabay)Coletâneas de contos de horror foram destaque no primeiro semestre de 2019.(Imagem:Pixabay))Coletâneas de contos de horror foram destaque no primeiro semestre de 2019.

Já se foram seis meses de 2019. Um semestre de muitas leituras, é verdade, embora não tantas quanto gostaríamos. Afinal, no caso da literatura, o ditado “vida breve, arte longa” é ainda mais verdadeiro do que em outras linguagens. Parece que a pilha na nossa cabeceira só aumenta.

Nestes momentos, listas costumam ajudar. E como nesta coluna lemos ficção de horror por paixão e ofício, resolvemos escolher as leituras mais marcantes desses primeiros seis meses. Ao final do texto, também recomendamos alguns lançamentos promissores nos próximos meses.

Antes, explicamos as escolhas: são livros que, na opinião do colunista, trazem alguma(s) singularidade(s). Textos que impressionam, seja pelas estratégias para causar o efeito do horror, seja pelas temáticas, seja pela construção retórica. Leituras que, séculos depois do surgimento da literatura gótica e de horror, ainda transmitem aquela maravilhosa sensação de que estamos diante de algo novo. Vamos às sugestões:

As Coisas que Perdemos no Fogo, de Mariana Enriquez
A coletânea de contos da escritora argentina está nocauteando leitores por onde passa. E não é por acaso, já que a força das histórias de Enríquez vem de várias fontes. A autora transita com muita habilidade entre os terrenos do familiar e do sobrenatural, em narrativas marcadas pela violência, pela miséria e pelo isolamento do mundo atual. Por esses motivos, Enríquez, hoje com 46 anos, é considerada uma expoente do chamado “horror urbano”.

A construção aparentemente simples dos textos favorece nosso envolvimento com o que é contado. E os golpes são desferidos na hora certa — às vezes seguidos, minando lentamente nosso juízo; às vezes únicos e demolidores. De um jeito ou de outro, contos como "A Casa de Adela", "Os Anos Tóxicos" e "O Quintal do Vizinho" levam-nos à lona, como bem ensinou o grande mestre — e conterrâneo de Enríquez — Julio Cortázar.

El Huésped y Otros Relatos Siniestros, de Amparo Dávila
Outra descoberta hispano-americana: Dávila é uma autora mexicana nascida em 1928 e ainda inédita no Brasil. Ela é conhecida pelos relatos curtos, mas intensamente fantásticos e macabros. Ilustrada pelo argentino Santiago Caruso, a coletânea El Huésped y Otros Relatos Siniestros oferece-nos um impressionante panorama desse trabalho.

O primeiro conto, "Alta Cocina", ilustra bem a estética da autora. Um(a) narrador(a) confessa seu tormento diante de banquetes preparados na casa de sua família. Mortifica-se com o sofrimento de criaturas que são preparadas e servidas ainda vivas, para deleite dos comensais.

O texto é curto, sóbrio e severo, e mais esconde do que revela. Ainda que o trabalho com o não dito seja um dos recursos mais utilizados por autores de horror, Amparo Dávila realiza-o com grande habilidade. Este e outros relatos, como "La Señorita Julia" e "El Huésped", convocam-nos habilmente a preencher as elipses da história com o que nossa mente tem de pior (ou de melhor, diriam alguns). E o resultado dificilmente se esquece.

Vejamos, agora, alguns lançamentos futuros que prometem dar o que falar (e aqui priorizamos obras que serão publicadas por meio de financiamento coletivo):

Mulheres vs. Monstros
Projeto independente organizado pela autora de thrillers paulista Cláudia Lemes. Trata-se de uma coletânea de contos que homenageará grandes mulheres da ficção — não só literária, mas cinematográfica, de seriados, e até mesmo do folclore e da mitologia. Escolhidos por Lemes, onze autoras e autores brasileiros elegeram um confronto "mulher X monstro" e criaram suas histórias a partir daí.

As narrativas do livro são inspiradas em Ellen Ripley e o Xenomorph de Alien; Laurie Strode e Michael Myers, de Halloween; Eleven e o Demogorgon, de Stranger Things; Nancy e Freddy Krueger, de A Hora do Pesadelo, e outras personagens célebres, como Barbarella, o Monstro da Lagoa Negra, Medusa, Atena, Vampirella, Eleonor Vance (de A Assombração na Casa da Colina, de Shirley Jackson), e até uma criatura do nosso folclore, o Arranca-Línguas. Além dos textos ficcionais, os autores também escreveram artigos em que justificam suas escolhas.

O projeto está com campanha aberta no Catarse e o lançamento está previsto para outubro.

O Enigma do Outro Mundo, de John W. Campbell
O filme de John Carpenter todo fã de horror conhece. O mesmo não acontece com o livro que o inspirou — até porque ele nunca foi editado no Brasil. Trata-se de Who Goes There, que também teve o título de Frozen Hell, do norte-americano John W. Campbell (1938).

O enredo literário, de traços lovecraftianos, é semelhante ao do filme: enquanto exploram o continente antártico, cientistas descobrem o corpo congelado de uma criatura alienígena de pele azul e três olhos vermelhos. Mas a coisa não estava realmente morta...

No exterior, Who goes there? fez tremendo sucesso; e a editora Diário Macabro pretende preencher essa lacuna nas estantes brasileiras. A publicação terá o mesmo nome do filme de Carpenter e ocorrerá por meio de financiamento coletivo, que começará a partir do dia 09 de julho no Catarse.

Varney, o Vampiro, de James Malcolm Rymer
Outra lacuna imperdoável nas nossas estantes. Considerado o maior exemplo do estilo sensacionalista e horripilante dos penny dreadfuls (folhetins de crime e horror vendidos a um centavo na Londres do século 19), Varney, o Vampiro adaptou o que havia de mais sinistro nas narrativas góticas para um público leitor de baixa renda, que buscava distração após jornadas de trabalho que chegavam a 16 horas diárias.

O resultado é uma história eletrizante, marcada pelos ataques noturnos do sanguessuga e pelas perseguições madrugada adentro. A saga do amaldiçoado Sir Francis Varney antecede em mais de cinco décadas o romance Drácula, de Bram Stoker, que se inspirou em muitas passagens da obra para compor a história de seu famoso conde. A publicação será da editora Sebo Clepsidra. E a campanha de financiamento coletivo está nos últimos dias.

*Oscar Nestarez é ficcionista de horror e mestre em literatura e crítica literária. Publicou Poe e Lovecraft: Um Ensaio Sobre o Medo na Literatura (2013, Livrus) e as antologias Sexorcista e Outros Relatos Insólitos (2014, Livrus) e Horror Adentro (2016, Kazuá).

Fonte Revista Galileu

Para ler mais notícias do FlorianoNews, clique em florianonews.com/noticias. Siga também o FlorianoNews no Twitter e no Facebook

Tópicos: literatura, autores, contos